terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Espelho - Machado de Assis

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
                                                                       Nova Aguilar, Riode Janeiro, 1994.


Esboço de uma nova teoria da alma humana


Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. 

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.

- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

- Duas?

- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

- Não?

- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...

- Perdão; essa senhora quem é?

- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...

Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

- Espelho grande?

- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

- Não.

- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

- Matá-lo?

- Antes assim fosse.

- Coisa pior?

- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

- Mas não comia?

- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...

- Na verdade, era de enlouquecer.

- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...

- Diga.

- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

- Mas, diga, diga.

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Uma História Social da Mídia - De Gutenberg à Internet

ASA BRIGGS & PETER BURKE
Jorge Zahar - Editor
Uma História Social da Mídia

Introdução

De acordo com o Oxford English Dictionary, foi somente na década de 1920 que as pessoas começaram a falar de "mídia". Uma geração depois, nos anos 1950, passaram a mencionar uma "revolução da comunicação". O interesse sobre os meios de comunicação, porém, é muito mais antigo. A retórica—estudo da arte de se comuni¬car oralmente e por escrito — era muito valorizada na Grécia e na Roma antigas. Foi estudada na Idade Média e com maior entusiasmo no Renascimento.

A retórica também era muito incentivada nos séculos XVIII e XIX, quando começaram a surgir novas ideias importantes. O conceito de "opinião pública" apareceu no final do século XVIII, e a preocupação com as "massas" tornou-se visível a partir do século XIX, na época em que os jornais — cuja história é aqui apresentada em todos os capítulos — ajudavam a moldar uma consciência nacio¬nal, levando as pessoas a ficarem atentas aos outros leitores (ver p.39).

Na primeira metade do século XX, especialmente pela eclosão das duas guerras mundiais, teve início o interesse académico pelo estudo da propaganda. Mais recentemente alguns teóricos ambiciosos, desde o antropólogo francês Clau-de Lévi-Strauss até o sociólogo alemão Niklas Luhmann, ampliaram ainda mais o conceito de "comunicação". Lévi-Strauss escreveu sobre trocas de mercadorias e mulheres; Luhmann, sobre poder, dinheiro e amor, assim como muitos outros Kommunikationsmedien. Se assim é, devem estar se perguntando os leitores, o que no mundo não é comunicação? Por outro lado, esta história se restringirá à comu¬nicação de informação e entretenimento e ideias, sob a forma de palavras e ima¬gens, por meio de fala, escrita, publicações, rádio, televisão e, mais recentemente, da Internet.

De modo significativo, foi com a era do rádio que o mundo académico começou a reconhecer a importância da comunicação oral na Grécia antiga e na Idade Média. O início da idade da televisão, na década de 1950, deu surgimento à comunicação visual e estimulou a emergência de uma teoria interdisciplinar da mídia. Realizaram-se estudos nas áreas de economia, história, literatura, arte, ciência política, psicologia, sociologia e antropologia, o que levou à criação de departamentos académicos de comunicação e estudos culturais. Frases bombásti-

cas envolvendo novas ideias foram criadas por Harold Innis (1894-1952), que escreveu sob o "viés das comunicações"; por Marshall McLuhan (1911-80), que falou da "aldeia global"; por Jack Goody, que traçou a "domesticação da mente selva¬gem"; e por Jürgen Habermas, o sociólogo alemão que identificou a "esfera públi¬ca", uma zona para o "discurso" no qual as ideias são exploradas e "uma visão pública" pode se expressar.

Este livro propõe que, seja qual for o ponto inicial, as pessoas que trabalham corn comunicação e estudos culturais — em número ainda crescente — devem levar em consideração a história; e que aos historiadores — de qualquer período ou tendência — cumpre levar em conta seriamente a teoria e a tecnologia da comunicação.

Alunos de comunicação, por exemplo, deveriam saber que alguns fenômenos da mídia são mais antigos do que em geral se imagina, como se pode ver nos dois exemplos seguintes. As séries atuais de televisão copiam o modelo das novelas radiofônicas, que, por sua vez, se moldam nas histórias em capítulos de revistas do século XIX (alguns romancistas, como Dickens e Dostoievski, originalmente pu¬blicaram seus trabalhos desta maneira). Algumas das convenções das histórias em quadrinhos do século XX seguem direta ou indiretamente uma tradição visual ainda mais antiga. Os balões com falas podem ser encontrados em publicações do século XVIII, que, por sua vez, são uma adaptação dos textos em forma de rolo que saíam das bocas da Virgem e outras figuras da arte religiosa medieval (Figura 1). São Marcos, na pintura de Tintoretto (1518-94) conhecida como O milagre de são Marcos, é representado como o Super-Homem das revistas em quadrinhos, com 400 anos de antecedência, mergulhando de cabeça do Céu para resgatar um cristão cativo (Figura 2).

Denúncias da nova mídia seguem um padrão semelhante, não importando se o objeto é a televisão ou a Internet. Elas nos remetem a debates antigos sobre os efeitos prejudiciais dos romances sobre os leitores e de peças teatrais sobre o público, nos séculos XVIII ou mesmo XVI, ao alimentar o ímpeto das paixões. São Cario Borromeo (1538-84), arcebispo de Milão, descreveu as peças de teatro como "uma liturgia do diabo", enquanto o primeiro capítulo de Four Arguments for the Elimination of Television, de Dennis e Merrill, intitulava-se "A barriga da besta". O papel da imprensa — e dos jornalistas que vivem dela — sempre foi controvertido. A falta de confiança nos "jornalistas" já era lugar-comum no sécu¬lo XVII. Por sua vez, as acusações sobre "denúncias de corrupção" também são antigas.

Apesar de todas essas ligações, este livro se concentrará sobre as mudanças na mídia. Na apresentação dessas mudanças, será feita uma tentativa de evitar dois perigos: o de afirmar que tudo piorou, ou admitir que houve um progresso contí¬nuo. De todo modo, a suposição de que as tendências seguiram em uma mesma direção deve ser rejeitada, embora os escritores que nelas acreditam tenham sido

Figura 1. Anónimo, A visão de são Bernardo, Livro das horas, c.1470.
Figura 2. Tintoretto, O milagre de são Marcos, 1548.

muitas vezes eloquentes e brilhantes em seus campos de atuação. O historiador italiano Cario Cipolla, em seu estudo Letramento e desenvolvimento no Ocidente (1969), deu ênfase à contribuição da capacidade de ler e escrever para a industria¬lização e, mais genericamente, para o "progresso" e a "civilização". Sugeriu que "a difusão da capacidade de ler e escrever significava ... uma atitude mais racional e mais receptiva diante da vida". O trabalho de Cipolla é representativo de uma fé na "modernização" típica de meados do século XX, crença subjacente às campa¬nhas de alfabetização organizadas pela Unesco e pêlos governos de países do Terceiro Mundo, como Cuba.

Os problemas levantados por esse tipo de abordagem exigem algum debate (ver p.255), assim como as declarações de que a Internet e seu potencial repre¬sentam uma agência de "democratização". Não é possível nessa altura de sua história concluir que, pela facilidade de acesso e pela transformação "a partir de baixo", ela desempenhará um papel renovador a longo prazo. Alguns críticos até temem que a Internet mine todas as formas de "autoridade", afete negativamente o comportamento e ameace a segurança individual e coletiva. Alguns especialistas em estudos de mídia, por conseguinte, têm posto em evidência de modo correto o que chamam de "debates da mídia". Eles englobam temas específicos e processos a longo prazo.

Uma história relativamente curta como esta deve ser muito seletiva e privile¬giar alguns temas, em detrimento de outros; dentre os selecionados destacam-se alguns como o papel da esfera pública, a obtenção e difusão de informação, o crescimento das redes e a chegada do entretenimento na mídia. A obra também deve se concentrar na mudança, em lugar da continuidade, embora se lembre aos leitores de quando em quando que, ao se introduzirem novas mídias, as mais antigas não são abandonadas, mas ambas coexistem e interagem. Com o surgi¬mento das publicações, os manuscritos continuaram sendo importantes, como aconteceu com os livros e o rádio na idade da televisão. A mídia precisa ser vista como um sistema, um sistema em contínua mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor destaque.

Temos aqui essencialmente uma história social e cultural que inclui política, economia e — também — tecnologia. Ao mesmo tempo rejeita o determinismo tecnológico baseado em simplificações enganosas (ver p.23, 26). Fomos influen¬ciados, de início, pela famosa fórmula clássica, simples e digna de merecimento, formulada pelo cientista político norte-americano Harold Lasswell (1902-78). Ele descreve a comunicação em termos de quem diz o quê, para quem, em que canal, com que efeito. O "quê" (conteúdo), o "quem" (controle) e o "para quem" (au¬diência) têm o mesmo peso. "Onde" também interessa. As reações dos diferentes grupos de pessoas sobre o que ouvem, vêem ou lêem exigem estudo permanente. O tamanho dos diferentes grupos — e mesmo se eles constituem uma "massa" — também é relevante. A linguagem das massas surgiu durante o século XIX e nos lembra que o "para quem" de Lasswell deve ser considerado em termos de "quantos".

Intenções imediatas, estratégias e táticas dos comunicadores precisam estar sempre relacionadas ao contexto no qual operam, assim como as mensagens que transmitem. Os efeitos a longo prazo, especialmente as consequências surpreen¬dentes e involuntárias do uso de determinado meio de comunicação, são mais difíceis de separar, mesmo que haja um distanciamento em razão do tempo decorrido. Na verdade, o próprio uso do termo "efeito" é controverso, pois impli¬ca uma relação de causa e efeito em uma só direção. As palavras "rede" e "Web" já estavam em uso no século XIX.

Este livro focaliza o mundo ocidental moderno a partir do século XV. A narrativa começa com a impressão (c.1450 d.C.), e não com o alfabeto (c.2000 a.C.), a escrita (c.5000 a.C.) ou a fala. Apesar da importância muitas vezes atribuí¬da a Johann Gutenberg (c. 1400-68), em quem os leitores de um jornal inglês votaram recentemente como o "homem do milénio" (Sunday Times, 28 de no¬vembro de 1999), não há evidência ou marco zero do começo da história. Assim, algumas vezes será necessário voltar no tempo até os mundos antigo ou medieval. Naquela época a comunicação não era imediata, mas já atingia todos os pontos do mundo conhecido.


O canadense Harold Innis foi um dos vários académicos do século XX a apontar a importância da mídia no mundo antigo. Economista de formação, fez fama com a chamada "teoria da matéria-prima" do desenvolvimento canadense, ressaltando o domínio sucessivo do comércio de peles, peixe e papel e os efeitos desses ciclos na sociedade canadense. "Cada produto básico deixa sua marca, e a mudança para novos produtos invariavelmente traz períodos de crise." Ao fazer uma pesquisa sobre o papel, chegou à história do jornalismo; pesquisando sobre o Canadá — onde as comunicações tiveram importância capital para o desenvol¬vimento económico e político colonial e pós-colonial —, chegou à história com¬parativa dos impérios e seus meios de comunicação, desde a Antiguidade, com Egito e Assíria, até o presente. Em sua obra Empire and Communications (1950), Innis conta, por exemplo, que o império assírio foi pioneiro na construção de estradas; dizia-se que uma mensagem podia ser mandada de qualquer lugar para o centro, e a resposta chegaria no prazo de uma semana.

Como bom historiador de economia, quando escreveu sobre a "mídia", Innis se referia aos materiais usados para a comunicação, contrastando os relati¬vamente duráveis — como pergaminhos, argila e pedra — com produtos razoa¬velmente efémeros — como papiros e papéis (mais adiante, as seções sobre as chamadas "idades" do vapor e da eletricidade irão sublinhar o ponto de vista de Innis a respeito da matéria na mídia de comunicação). Ele chega a sugerir que o uso dos materiais mais pesados, como ocorreu na Assíria, levou à adoção de um viés cultural com relação ao tempo e às organizações religiosas; enquanto os materiais mais leves podiam ser transportados rapidamente a distâncias maiores, resultando em uma tendência relacionada a espaço e organizações políticas. Parte da história inicial que Innis apresenta é frágil, e alguns de seus conceitos são malde-finidos; mas suas ideias permanecem, assim como a ampla abordagem compara¬tiva, como estímulo e inspiração para os próximos pesquisadores desse campo. Espera-se que futuros historiadores analisem as consequências do uso de plástico e fios da mesma forma como Innis fez com a pedra e o papiro.

Outro conceito central na teoria pioneira de Innis foi a ideia de que cada meio de comunicação tendia a criar um perigoso monopólio de conhecimento. Antes de decidir ser economista, ele pensou seriamente em tornar-se pastor batis-ta. O interesse do economista na competição, no caso competição entre diferentes tipos de mídia, estava ligado à radical crítica protestante da politicagem do clero. Argumentava ele que o monopólio intelectual dos monges da Idade Média, basea¬do em pergaminhos, foi solapado pelo papel e pela impressão gráfica, do mesmo modo que o "poder do monopólio sobre a escrita" exercido pêlos sacerdotes egípcios na idade dos hieróglifos havia sido subvertido pêlos gregos e seu alfabeto.

No entanto, no caso da Grécia antiga, Innis enfatizou mais a fala do que o alfabeto. "A civilização grega", escreveu, "era um reflexo do poder da palavra falada." A esse respeito, ele seguiu um colega seu de Toronto, Eric Havelock (1903-8), cujo Preface to Plato (1963) focalizava a cultura oral dos primeiros gregos. Os discursos na Assembleia de Atenas e as peças teatrais recitadas nos anfiteatros a céu aberto foram elementos importantes da antiga civilização grega. Nela, assim como em outras culturas orais, canções e histórias tinham forma muito mais fluida do que fixa, e a criação era coletiva, no sentido de que cantores e contadores de histórias continuamente adotavam e adaptavam temas e frases uns dos outros. Os académicos fazem o mesmo hoje em dia, embora o plágio seja censurado e nossas concepções de propriedade intelectual exijam que as fontes de empréstimo sejam indicadas, ao menos em nota de rodapé.

Ao esclarecer o processo de criação, Milman Parry (1900-35), professor de Harvard, argumentava que a Ilíada e a Odisseia — embora tenham sobrevivido até hoje somente porque foram passadas para o papel — eram essencialmente impro-visadas como poemas orais. Para testar sua teoria, Parry fez um trabalho de campo nos anos 1930 na lugoslávia rural (como era na época), gravando performances de poetas narradores com um gravador de rolo (o predecessor do gravador de fita). Analisou as fórmulas recorrentes (em frases como "mar escuro como vinho") e temas recorrentes (como um conselho de guerra ou o modo de armar um guerrei-ro), elementos pré-fabricados que permitiam aos cantores improvisar histórias durante horas.

No trabalho de Parry, desenvolvido por seu antigo assistente Albert Lord no The Singer of Tales (1960), a lugoslávia, e por analogia a Grécia homérica, ilustrava os aspectos positivos das culturas orais, muitas vezes desconsideradas — e ainda o são — como meramente "iletradas". A visão atual amplamente adotada pelo mundo académico é de que a antiga cultura grega foi moldada pelo domínio da comunicação oral.

Ainda assim, nas expedições que fazia, Alexandre, o Grande, carregava con-go um porta-jóias com a Ilíada de Homero. Além disso, uma grande biblioteca im cerca de meio milhão de manuscritos foi erguida na cidade que levou seu orne, Alexandria. Não é acidental que, associada a essa vasta biblioteca de ma-uscritos, fornecedora de informação e ideias de diferentes indivíduos, lugares e rocas a serem superpostos e comparados, tenha-se desenvolvido uma escola de

críticos que utilizava os recursos da biblioteca para incrementar práticas que

somente seriam disseminadas na era dos impressos (ver p.30). O equilíbrio entre pôs de mídia é discutido por Rosalind Thomas em Literacy and Orality in Ancient Greece(1992).

Imagens, especialmente estátuas, eram outra importante forma de comuni-cação e mesmo de propaganda no mundo antigo, sobretudo em Roma na era de Augusto. Essa arte oficial romana influenciou a iconografia dos primórdios da igreja Católica: a imagem de Cristo "em sua majestade", por exemplo, era uma adaptação da imagem do imperador. Para os cristãos, as imagens eram tanto um meio de transmitir informação como de persuasão. Conforme afirma o teólogo grego Basil de Caesarea (c.330-79), "os artistas fazem tanto pela religião com suas pinturas quanto os oradores com sua eloquência". De maneira semelhante, o papa Gregório, o Grande (c.540-604), dizia que as imagens serviam para aqueles que não sabiam ler — a grande maioria — da mesma maneira como a escrita servia para aqueles que liam. Beijar uma pintura ou uma estátua era um modo comum de expressar devoção, o que ainda hoje em dia se vê nos mundos católico e ortodoxo.

Foi a igreja bizantina que chegou mais próximo dos antigos modelos. Cristo era representado em sua majestade como Pantocrator ("o senhor de todos"), nos mosaicos que decoravam o interior dos domos das igrejas bizantinas. Desenvolvi¬da em uma parte da Europa onde o analfabetismo era muito grande, a cultura bizantina foi também a cultura dos ícones pintados de Cristo, da Virgem e dos santos. Um abade do século XVIII declarou: "Os evangelhos foram escritos com palavras, mas os ícones, com ouro." O termo "iconografia" foi transmitido para a cultura erudita e mais tarde, no século XX, para a popular, em que "ícone" se refere a uma celebridade secular, como — aliás apropriadamente — a cantora Madonna.

Os ícones bizantinos podiam ser vistos em casas, nas ruas e nas igrejas, onde eram colocados em lugares próprios, com portas afastando os leigos do santuário. Não havia essa separação nas igrejas católicas romanas. Em ambas as fés, o simbo-lismo era um aspecto da arte religiosa e das mensagens que transmitia, mas em Bizâncio, ao contrário do Ocidente até a Reforma, o ensinamento pela cultura visual esteve sob ataque, e as imagens eram algumas vezes encaradas como ídolos e destruídas por iconoclastas (destruidores de imagens), em um movimento que alcançou seu clímax no ano de 726.

O islã — assim como o judaísmo — baniu o uso da figura humana na arte religiosa; por isso mesquitas e sinagogas pareciam tão diferentes de igrejas. No entanto, na Pérsia, a partir do século XIV, figuras humanas com pássaros e ani¬mais ressaltavam nas iluminuras que vieram a florescer nos impérios otomano e mogul da índia. Elas eram fábulas ou histórias ilustradas. Os mais famosos exem¬plos de tais ilustrações no Ocidente foram os bordados, como os da Tapeçaria Bayeux (c. 1100), que descreve vivamente a conquista normanda da Grã-Bretanha em 1066, em uma peça de aproximadamente sete metros de comprimento que mostra uma narrativa visual, às vezes comparada a um filme no que diz respeito a suas técnicas e efeitos (Figura 3).

Nas catedrais da Idade Média, as imagens esculpidas em madeira, pedra ou bronze e figurando em vitrais formavam um poderoso sistema de comunicação. No romance O corcunda de Notre-Dame (1831-32), Victor Hugo descreveu a catedral e o livro como dois sistemas rivais: "Este matará aquela." De fato os dois sistemas coexistiram e interagiram durante longo período, como mais tarde os manuscritos e os impressos. "Para a Idade Média", de acordo com o historiador de
Figura 3. Tapeçaria anônima, Apocalipse, século XIV.

arte francês Emile Mâle (1862-1954), "a arte era didática". As pessoas aprendiam com as imagens "tudo o que era necessário saber — a história do mundo desde a criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o âmbito das ciências, artes e ofícios: tudo era ensinado pelas janelas das igrejas ou pelas estátuas dos pórticos".

O ritual era um outro destacado meio de comunicação medieval, e se man¬teve firme em contextos posteriores. A importância dos rituais públicos na Euro¬pa, inclusive os celebrados em festivais, durante os mil anos que vão de 500 a 1500, é explicada (de modo perceptível, apesar de inadequado) pelo baixo índice de letramento da época. O que não podia ser anotado devia ser lembrado, e o que devia ser lembrado devia ser apresentado de maneira fácil de se apreender. Rituais elaborados e teatrais — como a coroação de reis e a homenagem de vassalos ajoelhados em frente a seus superiores sentados — demonstravam para quem via a cena que havia ocorrido um evento importante. Transferências de terras podiam ser acompanhadas por presentes, objetos simbólicos como um pedaço de turfa ou uma espada. O rito, e seu forte componente visual, era uma forma superior de publicidade, e ainda seria na idade dos eventos televisivos, como a coroação da rainha Elisabeth II. A palavra "espetáculo", comumente usada no século XVII, foi ressuscitada no século XX.

No entanto, a Europa medieval — assim como a Grécia antiga — sempre foi considerada uma cultura essencialmente oral. Os sermões eram um meio impor¬tante de disseminar informação. O que hoje chamamos de literatura medieval teve sua produção, nas palavras de um estudioso pioneiro neste tema, o decano H.J. Chaytor, voltada para um "público ouvinte, e não para um público leitor". Muitas vezes a leitura era feita em voz alta. Em From Script to Pmzf (1945), explicou que, se a sala de leitura da (digamos) Biblioteca Britânica fosse totalmente ocupada por leitores medievais, "o ruído dos sussurros e murmúrios seria intolerável". Os relatos medievais eram realizados em uma "audição" no sentido literal, pois al¬guém os ouvia, enquanto eram lidos em voz alta. O mesmo acontecia com poemas de todos os tipos, monásticos ou seculares. A saga islandesa referente a um passa¬do que não o greco-romano recebeu esse nome por ser lida em voz alta, ou seja, falada ou "dita".

Foi somente pouco a pouco, a partir do século XI, que a escrita começou a ser empregada por papas e reis para uma variedade de propósitos práticos, enquanto a confiabilidade na escrita como registro (conforme Michael Clanchy mostrou em From Memory to Written Record, 1979) se desenvolveu ainda mais lentamente. Por exemplo, na Inglaterra, em 1101, algumas pessoas preferiam confiar mais na palavra de três bispos do que em um documento do papa, que descreviam com desdém como "peles de carneiros castrados escurecidas com tinta". No entanto, apesar desses exemplos de resistência, a penetração gradual da escrita na vida cotidiana do fim da Idade Média teve consequências importantes. Inclusive na mudança de costumes tradicionais por leis escritas, no surgimento da falsificação, no controle da administração por escriturários (clérigos instruídos) e, como sa¬lientou Brian Stock em The Implications of Literacy (1972), no surgimento de hereges. Estes justificavam suas opiniões não-ortodoxas baseando-se nos textos bíblicos, e portanto ameaçando o que Innis chamou de "monopólio" do conheci¬mento pelo clero medieval. Por este e outros motivos, os estudiosos falam do surgimento da cultura escrita nos séculos XII e XIII.

Manuscritos — inclusive iluminuras — foram produzidos em número cada vez mais elevado nos dois séculos anteriores à invenção da impressão gráfica, nova tecnologia introduzida para satisfazer uma demanda crescente por material de leitura. Nos dois séculos anteriores à impressão gráfica, a arte visual também se desenvolveu no que, em retrospecto, foi visto como arte dos retratos. O poeta Dante e o artista Giotto (1266-1330) foram contemporâneos. Ambos eram fasci¬nados pela fama, assim como Petrarca (1304-74), de uma geração posterior, e todos os três alcançaram-na durante a vida. O mesmo aconteceu com Boccaccio (1317-75) e Chaucer (1340-1400) na Inglaterra. O último escreveu um notável poema, "A casa da fama", com imagens de sonho tiradas do tesouro de seu cérebro para dizer o que significava a fama. Petrarca escreveu uma "Carta à posteridade", na qual dava detalhes pessoais, inclusive de sua aparência física, e orgulhosamente proclamava que "os gloriosos serão gloriosos por toda a eternidade". A ênfase na permanência seria ainda mais forte na idade da impressão gráfica.

Com o desenvolvimento da comunicação elétrica, iniciada com o telégrafo, no século XIX, surgiu uma percepção de mudança iminente e imediata. Os deba¬tes na mídia na segunda metade do século XX estimularam a reavaliação, tanto da invenção da impressão gráfica quanto de todas as outras tecnologias que foram tratadas no princípio como maravilhas. Geralmente aceita-se que as mudanças na mídia tiveram importantes consequências culturais e sociais. Controversos são a natureza e o escopo dessas consequências. São elas primordialmente políticas ou psicológicas? Pelo lado político, favorecem a democracia ou a ditadura? A "era do rádio" foi não somente a era de Roosevelt e Churchill, mas também de Hitler, Mussolini e Stálin. Pelo lado psicológico, a leitura e a visão estimulam a empatia com os outros ou o isolamento em um mundo particular? A televisão ou "a rede" aniquilam ou criam novos tipos de comunidades nas quais a proximidade espacial não é menos importante?

De novo, as consequências do letramento ou da televisão são mais ou menos as mesmas em qualquer sociedade, ou variam de acordo com o contexto social ou cultural? É possível distinguir culturas da visão, nas quais o que é visto se sobrepõe ao que é ouvido, e culturas da audição, mais ligadas a sons? Cronologicamente, há uma "grande divisão" entre as culturas orais e literárias, ou entre sociedades pré e pós-televisão? Como a máquina a vapor e a industrialização se relacionam com essa divisão? A invenção — assim como a adoção e o desenvolvimento — de locomotivas e navios a vapor fez reduzir o tempo das viagens e ampliou os merca¬dos. E a eletrônica, palavra que não era usada no século XIX, propiciou o imedia-tismo como previam os comentadores da época.

Alguns pioneiros desses debates deram respostas positivas, e não somente Cipolla (ver p.14), mas também teóricos de áreas académicas bastante diferentes, como Marshall McLuhan e seu aluno Walter Ong, mais conhecido por sua Orality andLiteracy(\982). O primeiro rapidamente se tornou famoso, enquanto o outro se contentou em ser padre e académico. Na Galáxia de Gutenberg (1962), escrita de forma experimental, em Os meios de comunicação (1964) e em outros traba¬lhos, McLuhan, seguindo seus colegas de Toronto (Innis e Havelock), afirmou a centralidade da mídia, ao identificar e traçar as características específicas — inde¬pendentemente das pessoas que as usam — das estruturas organizacionais com as quais operam os produtores e dos objetivos para os quais são usadas.

Para McLuhan, que tinha formação de crítico literário, o importante não era o conteúdo da informação, e sim a forma que ela assumia. Ele embutiu sua inter¬pretação em frases memoráveis como "o meio é a mensagem" e na distinção entre mídia "quente" — como rádio e cinema — e mídia "fria" — como televisão e telefone. Mais recentemente outro canadense, o psicólogo David Olson, em The World of Paper (1994), cunhou a expressão "a mentalidade letrada" para resumir as mudanças que as práticas da leitura e da escrita provocaram, segundo ele, no modo como pensamos a linguagem, o espírito e o mundo, do surgimento da subjetividade à imagem do universo como livro. Ong, mais interessado no contex¬to, reconheceu sua dívida com a teoria de mídia da Escola de Toronto (o nome, como o da escola de Frankfurt, é uma lembrança da contínua importância das cidades na comunicação académica). Ele enfatizou as diferenças de mentalidade entre culturas orais e quirográficas, ou "culturas da escrita", fazendo uma distin¬ção entre "o pensamento baseado na oralidade... na quirografia, na tipografia e na eletrônica". Observou, por exemplo, o papel da escrita na "descontextualização" de ideias, ou seja, na sua retirada das situações face a face nas quais foram original¬mente formuladas, de modo a aplicá-las em outro lugar.

O antropólogo Jack Goody discutiu as consequências sociais e psicológicas do letramento de maneira similar a Ong. Em The Domestication ofthe Savage Life (1977), baseando-se em uma análise de listas escritas no antigo Oriente Médio, Goody enfatizou a reorganização ou reclassificação de informação, uma outra maneira de descontextualização possibilitada pela escrita. Trabalhando em seu próprio campo de estudos no oeste da África, salientou a tendência da cultura oral para adquirir o que ele chama de "amnésia estrutural", isto é, o esquecimento do passado, ou, mais exatamente, a lembrança de um passado que é igual ao presente. Por outro lado, a permanência de registros escritos age como um obstáculo a esse tipo de amnésia, e portanto estimula uma consciência da diferença entre passado e presente. O sistema oral é mais fluido e flexível; o escrito, mais fixo. Outros analistas fizeram observações contundentes sobre as consequências do letramento como condição para a emergência do pensamento abstrato e crítico (para não mencionar a empatia e a racionalidade).

Essas observações sobre os efeitos do letramento foram contestadas, sobre¬tudo, por outro antropólogo britânico, Brian Street. Em Literacy in Theory and Practice (1984), Street criticou não somente o conceito da "grande divisão", mas também o que chamou de "modelo autónomo" do letramento como "uma tecno¬logia neutra que pode ser destacada de contextos sociais específicos". Em seu lugar propôs um modelo de letramentos, no plural, que enfatizava o contexto social de práticas como leitura e escrita e o papel ativo das pessoas comuns que fazem uso dessas aptidões. Tomando exemplos de seu trabalho de campo no Ira, na década de 1970, fez um contraste entre dois tipos de escolaridade, a arte da leitura do Corão ensinada na escola religiosa e a arte da contabilidade lecionada na escola comercial do mesmo lugar.

Caso semelhante pode ser relatado na moderna Turquia, onde o líder nacio- nal Kemal Atatürk ordenou a troca da notação arábica para o alfabeto ocidental em 1929, declarando que "nossa nação mostrará com sua notação e sua mente que seu lugar é no mundo civilizado". A troca ilustra vivamente a importância simbó-lica da mídia de comunicação. Ela também é relacionada à questão da memória, pois Atatürk queria modernizar o seu país, e, mudando a notação, eliminava o acesso da nova geração à antiga tradição. No entanto, nas escolas religiosas que ensinam o Corão, tanto na Turquia quanto no Ira, a notação tradicional arábica ainda é ensinada.

A disputa entre Goody e Street, junto com o debate mais recente sobre realidade virtual e ciberespaço — tema da conclusão deste livro —, oferece ilustra¬ções claras e sempre pertinentes sobre os enfoques e as limitações associadas às tendências disciplinares. No transcurso de seus trabalhos de campo, os antropólo¬gos, por exemplo, têm mais oportunidades que os historiadores para investigar em profundidade o contexto social, mas menos chances de observar mudanças com o passar dos séculos. A partir da década de 1990, as análises da mídia, tanto por antropólogos quanto por historiadores, foram postas de lado pêlos escritores (inclusive romancistas e cineastas). Enquanto isso, ao confrontar os temas levan¬tados no interior da rubrica "globalização", os economistas tendiam a se concen-trar no estatisticamente mensurável. Alguns produtores e roteiristas, desviando-se do problema da relação entre ciência e tecnologia, reduziam "todas as coisas do mundo a pontos luminosos, dados, unidades de mensagem contidas dentro do cé¬rebro e de seu assistente, o computador". Outros alongavam-se sobre a complexi¬dade e o modo como o computador alterou "a arquitetura das ciências (e artes) e a imagem que temos da realidade material".

Para historiadores e especialistas em estudos sociais, há uma divisão contí¬nua entre os que enfatizam a estrutura e os que realçam a organização. De um lado, alguns reivindicam que não há consequências do uso do computador em si, pelo menos não mais do que há com o letramento (incluindo o visual e o compu¬tacional). Somente há consequências para indivíduos que usam essas ferramentas. De outro lado, outros sugerem que o uso de um novo meio de comunicação inevitavelmente muda a longo prazo, se não antes, a visão das pessoas sobre o mundo. Uma corrente acusa a outra de tratar pessoas comuns como passivas, objetos do impacto do letramento ou da computação. A acusação inversa é tratar a mídia, inclusive a imprensa, como passiva, espelho da cultura e da sociedade, e não como agência de comunicação transformando tanto uma quanto outra.

Este não é o lugar para tentar dar fim ao debate. Ao contrário, pedimos aos leitores que se lembrem dos pontos de vista alternativos durante a leitura das páginas a seguir. Nenhuma teoria única fornece um guia completo para o reino contemporâneo das "tecnologias de comunicação de alta definição, de interação e mutuamente convergentes", nas quais as relações, sejam elas individuais ou sociais, locais ou globais, estão em fluxo contínuo.

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