segunda-feira, 30 de julho de 2012

História oral e memória: O que é e como se faz

Maria Nilda

O curso será realizado em SP, nos dias 04 e 11/agosto, aos sábados, das 10h às 13h.
 
O curso “História oral e memória: O que é e como se faz” tem como propósito capacitar estudantes, professores, profissionais e quaisquer interessados para a realização de projetos de história oral. Para isso, oferece formação teórica e prática, apresentando desde os pressupostos e conceitos fundamentais desta prática como as diferentes técnicas e métodos passíveis de utilização.
 
Plenamente consagrada como um dos mais interessantes recursos para estudos sobre o tempo presente, a história oral surgiu em 1948 no Oral History Research Office da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Difundiu-se pelo mundo e, no Brasil, adquiriu características especiais que adaptaram este método à realidade do país.
 
Como método, a história oral demonstra o valor de toda e qualquer história: reconhece que cada indivíduo é protagonista dos acontecimentos sociais e que mesmo experiências particulares são derivadas de um cenário compartilhado, no qual ressoam. A coleta e reunião de histórias pessoais – que dão a ver a complexidade das experiências que formam a memória e a história coletiva – é um de seus propósitos.
 
Ao fim do curso, que não exige experiência prévia, os participantes terão reunido as ferramentas essenciais para a confecção de trabalhos de história oral e memória que podem ser aplicados a um sem-número de temas e campos.
 
Conteúdo - Programa
 
O que é
1.    Estudos de memória e a história da história oral no Brasil e no mundo
2.    Conceitos fundamentais para o trabalho com história oral
3.    A poética e a política da história oral
4.    História oral, história pública e autoridade compartilhada
Como se faz
1.    História oral, eletrônica, pesquisa e arquivos
O projeto de pesquisa e as modalidades de história oral
2.    A entrevista, seus recursos e cenários, técnicas e soluções
3.    Tratamento textual e literário das entrevistas
4.    Questões éticas e jurídicas na história oral
5.    Execução, tratamento, publicação de entrevistas
 
Serviço:
O que: Curso História oral e memória: O que é e como se faz
Quandodias 04 e 11/agosto, das 10h às 13h, em São Paulo

Onde: Espaço BibliASPA - Rua Baronesa de Itu, 639 – Higienópolis – SP
Investimento: R$ 150,00 - inclui apostila e certificado
Informações: (11) 9251 9895
30 vagas
Organização/Realização:
Ricardo Santhiago. Graduado em Jornalismo, especialista em Jornalismo Científico, mestre e doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo, onde prepara tese sobre a história oral no Brasil. É pesquisador do MusiMid - Centro de Estudos em Música e Mídia, do GEPHOM - Grupo de Estudo e Pesquisa em História Oral e Memória e do Núcleo de Estudos em História da Cultura Intelectual. Autor dos livros "Solistas Dissonantes: História (oral) de cantoras negras" e "Alaíde Costa: Minha vida é um desafio", entre outras publicações dentro e fora do Brasil. Atua predominantemente nas áreas de história oral, história intelectual, música e literatura no Brasil, comunicações, nas quais tem produção técnica, artística e bibliográfica.
 
Maria Nilda R Santos é Jornalista, gestora organizacional, pesquisadora autônoma e consultora na área de comunicação. Já prestou serviços para o Ministério do Meio Ambiente, Secretaria do Meio Ambiente de SP, ONG Associação Saúde Sem Limites, FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro coordenou a Oficina de Jornalismo Experimental da ONG Papel Jornal/SP, entre outros.

APOIO: BibliASPA - Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul - Países Árabes

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A vida pulsa na Roosevelt

Mari Azoli

 
Roda de amigos no Papo Pinga e Petisco -  foto: Mari Azoli
Barbearia, tabacaria, livrarias, restaurantes, teatros e botecos de mesinhas na calçada com roda de amigos formam o cenário da Praça Roosevelt, espaço cultural que compõe a história da grande metrópole, localizado entre as ruas da Consolação e Augusta.

"Foi nesse local  que Elis Regina cantou pela primeira vez em São Paulo", conta Esdras Vassalo, conhecido como Doca, dono do pitoresco bar Papo, Pinga e Petisco.

O PPP, bar do Doca ou bar do Elvis, como as pessoas costumam chamar, possui um ambiente diferenciado de outros botecos tradicionais. Tetos e paredes decorados com discos de vinil e objetos artesanais variados, geladeiras antigas, vitrolas dos anos cinqüenta e sessenta, fotografias de Elvis Presley por toda parte, painel de retratos dos freqüentadores como Mel Lisboa, Jair Rodrigues, Antonio Fagundes, Suzana Vieira entre outros completam a decoração; e no fundo do bar um sebo com livros de artes, literatura brasileira e teatro; e também discos de Tom Jobim, Elis Regina à venda por R$5,00 cada.“Aqui eu não vendo só bebida, vendo também cultura” enfatiza Doca.

Frequentador desde o dia da inauguração do bar, há sete anos, o fotógrafo e ator, Robson Regato, afirma que, não freqüentaria outros bares se não existisse o PPP. Segundo ele, por conta do público, da qualidade da comida e bebida e também da proximidade de sua casa.

“Por um mês fiz daqui a minha sala. À noite eu descia, trazia um livro, um texto que eu tinha que ler”, Regato lembra-se da época quando o boteco ainda não tinha a agitação que tem hoje. “É como se eu tivesse um bar na minha casa, e no final de tarde, três vezes por semana reúno com meus amigos para beber”, completa.

Reuniões de amigos e até mesmo de trabalhos são comuns no bar do Doca. Após a labuta, pessoas de todas as tribos e de vários lugares, entre 20 e 50 anos, se juntam para botar o papo em dia, degustar os diversos sabores de pingas como Anísio Santiago, Vale Verde, Claudionor, Germana, Canarinhos, consideradas as favoritas da lista de cachaças divulgadas pela Revista Playboy, e comer, entre outros petiscos, a famosa carne louca, especialidade da casa.

O boteco virou um ponto de encontro com direito a amigo secreto de final de ano. “E já se fala em criar um bloco de carnaval do bar”, afirma Armando Coelho Neto, editor chefe da revista Artigo 5º e freqüentador do local há cinco anos.

Segundo Neto, além do público "extremamente simpático", uma série de atrativos faz de Papo, Pinga e Petisco, um lugar especial, desde o visual a seleção musical (MPB, blues, jazz). “Eu gosto da decoração, as pessoas são diferentes em relação a outros bares e aqui tenho uma regressão musical, posso escolher a música que eu quero na vitrolinha de fichas”, conta.

Mas como nem tudo é perfeito, a reclamação fica por conta do encerramento do expediente do bar. “O grande defeito deles é que são muitos rígidos, por causa da Lei do PSIU”, reclamam os freqüentadores.

Serviço
Papo Pinga e Petisco
Praça Franklin Delano Roosevelt, 118
Seg a Qui, das 18h à 0h30. Sex e Sáb, das 18h às 2h30.
Fone (11) 3257-4106


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Joãozinha de Barro

Ainda não sei quem é o fotógrafo dessa linda fotografia. Quem souber me avisa.

domingo, 8 de maio de 2011

Cloud Computing é visto como negócio vantajoso

Universo virtual se torna uma alternativa lucrativa a quem aluga sua capacidade tecnológica para a “computação em nuvem”
Mari Azoli

Wikipedia

Facebook, Flickr, Gmail, Youtube, Dropbox, Mercado Livre, Skype, Twitter, são serviços que usamos no dia-a-dia, comuns para a maioria das pessoas. Porém, poucos sabem que esses são apenas alguns dos produtos baseados em Cloud Computing, a nova moda dos negócios de internet.

Trata-se de uma solução de alto desempenho computacional, na qual a infraestrutura de fornecedores e usuários (processamento, armazenamento e softwares) está em algum lugar da rede e é acessada remotamente, via internet.

As vantagens que esse modelo pode oferecer são inúmeras. Uma delas é o fato de a pessoa não depender de um equipamento específico para acessar os aplicativos, pois a parte pesada do processamento fica na “nuvem”, ou seja, em servidores espalhados pela rede. O usuário só precisa de uma boa conexão à internet.

“Posso gravar meus arquivos em um computador que não está comigo, o que possibilita acessá-los via internet a qualquer momento, de qualquer lugar”, diz Wagner Pereira, analista de sistemas do Ponto de Presença da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa de São Paulo (RNP).

Para atender à demanda de acesso em épocas como o Natal ou Dia das Mães, a loja online Amazon costuma investir em equipamentos potentes. Passados os períodos de pico, essa estrutura ficava ociosa. Uma saída foi virtualizar sua capacidade tecnológica para atender às necessidades de outras empresas, alugando máquinas virtuais conforme o interesse do cliente.

O que começou como um investimento esporádico virou um negócio rentável para a Amazon, pioneira em fornecer serviços baseados em Cloud Computing. Lucrativo também para as empresas que não têm a tecnologia da informação (ou TI) como seu objetivo principal.

Segundo Manoel Veras, especialista em TI, as empresas podem reduzir custos de processamento e armazenagem de dados. “A loja virtual pode ter um foco em aquisição de serviços e trocar a hospedagem convencional por um modelo mais sofisticado, que transfira toda a infraestrutura para o provedor”, explica.

Celso Poderoso, Diretor de Relações Internacionais e Coordenador de Graduação Tecnológica da Faculdade de Tecnologia (FIAP), é da mesma opinião. “Há todo um custo relacionado à manutenção da estrutura, energia elétrica, pessoal técnico, etc. Isso é muito caro para empresas que não são especializadas em TI”.

Poderoso acredita que o Cloud Computing veio para ficar. “Com o passar do tempo e o consequente amadurecimento do mercado, as vantagens estarão cada vez mais aparentes”, afirma.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Luta para salvar o Cine Belas Artes não tem final feliz
Fechamento do cinema causa tristeza e indignação nos frequentadores
Mari Azoli
Imagem: Mari Azoli
Batucadas, buzinadas, abaixo-assinados; foram várias as manifestações a favor da permanência do Belas Artes, tradicional espaço que integrava a história da grande metrópole, localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação.

A luta dos frequentadores do cinema não foi suficiente para evitar que uma das poucas salas com programação alternativa da cidade fechasse suas portas. Hoje, naquele que já foi um ponto de encontro cultural restaram apenas cartazes e faixas de protesto, além de inúmeras histórias.

Histórias como a do estudante Fábio Barbosa, que assistiu ali a praticamente todos os filmes de Pedro Almodóvar, cineasta e ator espanhol, e disse não se esquecer da sessão do longa metragem argentino O segredo dos seus olhos, dirigido por Juan José Campanella, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

“Alguma coisa acontece no meu coração, quando cruzo a Paulista com a Consolação. Este espaço era mágico, impregnado de energia humana, onde tantas vezes suspirei por mais de um motivo”, Barbosa relata, emocionado, seus sentimentos sobre o local.

Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura da USP, explica em artigo publicado na revista Carta Capital de janeiro de 2011 que a desertificação das ruas, nas cidades contemporâneas, é um dos sintomas mais graves da decadência da civilização urbana. A morte dos cinemas de rua é um dos resultados mais preocupantes desse processo.

Celso Reis, analista de sistemas, compartilha da opinião de Bonduki. “Eu não sei definir que tipo de mundo nós estamos produzindo, mas com certeza abrir mão de um cinema como o Belas Artes não me parece um sinal de evolução”, afirma.

“A nova urbanização individualiza cada vez mais o cidadão paulistano”, explica Roberval Laes Alves Bandeira, estudante do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Ele acredita que o abandono das ruas em decorrência do encerramento das atividades dos cinemas gera maior perigo e violência à população.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

PASSEIO SOCRÁTICO

Frei Beto

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não; minha aula é à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais”. “Não”, ela retrucou, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, indaguei. “Aulas de inglês, balé, pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’”

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma próspera cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!” Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.