ASA BRIGGS & PETER BURKE
Jorge Zahar - Editor
Uma História Social da Mídia
Introdução
De acordo com o Oxford English Dictionary, foi somente na década de 1920 que as pessoas começaram a falar de "mídia". Uma geração depois, nos anos 1950, passaram a mencionar uma "revolução da comunicação". O interesse sobre os meios de comunicação, porém, é muito mais antigo. A retórica—estudo da arte de se comuni¬car oralmente e por escrito — era muito valorizada na Grécia e na Roma antigas. Foi estudada na Idade Média e com maior entusiasmo no Renascimento.
A retórica também era muito incentivada nos séculos XVIII e XIX, quando começaram a surgir novas ideias importantes. O conceito de "opinião pública" apareceu no final do século XVIII, e a preocupação com as "massas" tornou-se visível a partir do século XIX, na época em que os jornais — cuja história é aqui apresentada em todos os capítulos — ajudavam a moldar uma consciência nacio¬nal, levando as pessoas a ficarem atentas aos outros leitores (ver p.39).
Na primeira metade do século XX, especialmente pela eclosão das duas guerras mundiais, teve início o interesse académico pelo estudo da propaganda. Mais recentemente alguns teóricos ambiciosos, desde o antropólogo francês Clau-de Lévi-Strauss até o sociólogo alemão Niklas Luhmann, ampliaram ainda mais o conceito de "comunicação". Lévi-Strauss escreveu sobre trocas de mercadorias e mulheres; Luhmann, sobre poder, dinheiro e amor, assim como muitos outros Kommunikationsmedien. Se assim é, devem estar se perguntando os leitores, o que no mundo não é comunicação? Por outro lado, esta história se restringirá à comu¬nicação de informação e entretenimento e ideias, sob a forma de palavras e ima¬gens, por meio de fala, escrita, publicações, rádio, televisão e, mais recentemente, da Internet.
De modo significativo, foi com a era do rádio que o mundo académico começou a reconhecer a importância da comunicação oral na Grécia antiga e na Idade Média. O início da idade da televisão, na década de 1950, deu surgimento à comunicação visual e estimulou a emergência de uma teoria interdisciplinar da mídia. Realizaram-se estudos nas áreas de economia, história, literatura, arte, ciência política, psicologia, sociologia e antropologia, o que levou à criação de departamentos académicos de comunicação e estudos culturais. Frases bombásti-
cas envolvendo novas ideias foram criadas por Harold Innis (1894-1952), que escreveu sob o "viés das comunicações"; por Marshall McLuhan (1911-80), que falou da "aldeia global"; por Jack Goody, que traçou a "domesticação da mente selva¬gem"; e por Jürgen Habermas, o sociólogo alemão que identificou a "esfera públi¬ca", uma zona para o "discurso" no qual as ideias são exploradas e "uma visão pública" pode se expressar.
Este livro propõe que, seja qual for o ponto inicial, as pessoas que trabalham corn comunicação e estudos culturais — em número ainda crescente — devem levar em consideração a história; e que aos historiadores — de qualquer período ou tendência — cumpre levar em conta seriamente a teoria e a tecnologia da comunicação.
Alunos de comunicação, por exemplo, deveriam saber que alguns fenômenos da mídia são mais antigos do que em geral se imagina, como se pode ver nos dois exemplos seguintes. As séries atuais de televisão copiam o modelo das novelas radiofônicas, que, por sua vez, se moldam nas histórias em capítulos de revistas do século XIX (alguns romancistas, como Dickens e Dostoievski, originalmente pu¬blicaram seus trabalhos desta maneira). Algumas das convenções das histórias em quadrinhos do século XX seguem direta ou indiretamente uma tradição visual ainda mais antiga. Os balões com falas podem ser encontrados em publicações do século XVIII, que, por sua vez, são uma adaptação dos textos em forma de rolo que saíam das bocas da Virgem e outras figuras da arte religiosa medieval (Figura 1). São Marcos, na pintura de Tintoretto (1518-94) conhecida como O milagre de são Marcos, é representado como o Super-Homem das revistas em quadrinhos, com 400 anos de antecedência, mergulhando de cabeça do Céu para resgatar um cristão cativo (Figura 2).
Denúncias da nova mídia seguem um padrão semelhante, não importando se o objeto é a televisão ou a Internet. Elas nos remetem a debates antigos sobre os efeitos prejudiciais dos romances sobre os leitores e de peças teatrais sobre o público, nos séculos XVIII ou mesmo XVI, ao alimentar o ímpeto das paixões. São Cario Borromeo (1538-84), arcebispo de Milão, descreveu as peças de teatro como "uma liturgia do diabo", enquanto o primeiro capítulo de Four Arguments for the Elimination of Television, de Dennis e Merrill, intitulava-se "A barriga da besta". O papel da imprensa — e dos jornalistas que vivem dela — sempre foi controvertido. A falta de confiança nos "jornalistas" já era lugar-comum no sécu¬lo XVII. Por sua vez, as acusações sobre "denúncias de corrupção" também são antigas.
Apesar de todas essas ligações, este livro se concentrará sobre as mudanças na mídia. Na apresentação dessas mudanças, será feita uma tentativa de evitar dois perigos: o de afirmar que tudo piorou, ou admitir que houve um progresso contí¬nuo. De todo modo, a suposição de que as tendências seguiram em uma mesma direção deve ser rejeitada, embora os escritores que nelas acreditam tenham sido
Figura 1. Anónimo, A visão de são Bernardo, Livro das horas, c.1470.
Figura 2. Tintoretto, O milagre de são Marcos, 1548.
muitas vezes eloquentes e brilhantes em seus campos de atuação. O historiador italiano Cario Cipolla, em seu estudo Letramento e desenvolvimento no Ocidente (1969), deu ênfase à contribuição da capacidade de ler e escrever para a industria¬lização e, mais genericamente, para o "progresso" e a "civilização". Sugeriu que "a difusão da capacidade de ler e escrever significava ... uma atitude mais racional e mais receptiva diante da vida". O trabalho de Cipolla é representativo de uma fé na "modernização" típica de meados do século XX, crença subjacente às campa¬nhas de alfabetização organizadas pela Unesco e pêlos governos de países do Terceiro Mundo, como Cuba.
Os problemas levantados por esse tipo de abordagem exigem algum debate (ver p.255), assim como as declarações de que a Internet e seu potencial repre¬sentam uma agência de "democratização". Não é possível nessa altura de sua história concluir que, pela facilidade de acesso e pela transformação "a partir de baixo", ela desempenhará um papel renovador a longo prazo. Alguns críticos até temem que a Internet mine todas as formas de "autoridade", afete negativamente o comportamento e ameace a segurança individual e coletiva. Alguns especialistas em estudos de mídia, por conseguinte, têm posto em evidência de modo correto o que chamam de "debates da mídia". Eles englobam temas específicos e processos a longo prazo.
Uma história relativamente curta como esta deve ser muito seletiva e privile¬giar alguns temas, em detrimento de outros; dentre os selecionados destacam-se alguns como o papel da esfera pública, a obtenção e difusão de informação, o crescimento das redes e a chegada do entretenimento na mídia. A obra também deve se concentrar na mudança, em lugar da continuidade, embora se lembre aos leitores de quando em quando que, ao se introduzirem novas mídias, as mais antigas não são abandonadas, mas ambas coexistem e interagem. Com o surgi¬mento das publicações, os manuscritos continuaram sendo importantes, como aconteceu com os livros e o rádio na idade da televisão. A mídia precisa ser vista como um sistema, um sistema em contínua mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor destaque.
Temos aqui essencialmente uma história social e cultural que inclui política, economia e — também — tecnologia. Ao mesmo tempo rejeita o determinismo tecnológico baseado em simplificações enganosas (ver p.23, 26). Fomos influen¬ciados, de início, pela famosa fórmula clássica, simples e digna de merecimento, formulada pelo cientista político norte-americano Harold Lasswell (1902-78). Ele descreve a comunicação em termos de quem diz o quê, para quem, em que canal, com que efeito. O "quê" (conteúdo), o "quem" (controle) e o "para quem" (au¬diência) têm o mesmo peso. "Onde" também interessa. As reações dos diferentes grupos de pessoas sobre o que ouvem, vêem ou lêem exigem estudo permanente. O tamanho dos diferentes grupos — e mesmo se eles constituem uma "massa" — também é relevante. A linguagem das massas surgiu durante o século XIX e nos lembra que o "para quem" de Lasswell deve ser considerado em termos de "quantos".
Intenções imediatas, estratégias e táticas dos comunicadores precisam estar sempre relacionadas ao contexto no qual operam, assim como as mensagens que transmitem. Os efeitos a longo prazo, especialmente as consequências surpreen¬dentes e involuntárias do uso de determinado meio de comunicação, são mais difíceis de separar, mesmo que haja um distanciamento em razão do tempo decorrido. Na verdade, o próprio uso do termo "efeito" é controverso, pois impli¬ca uma relação de causa e efeito em uma só direção. As palavras "rede" e "Web" já estavam em uso no século XIX.
Este livro focaliza o mundo ocidental moderno a partir do século XV. A narrativa começa com a impressão (c.1450 d.C.), e não com o alfabeto (c.2000 a.C.), a escrita (c.5000 a.C.) ou a fala. Apesar da importância muitas vezes atribuí¬da a Johann Gutenberg (c. 1400-68), em quem os leitores de um jornal inglês votaram recentemente como o "homem do milénio" (Sunday Times, 28 de no¬vembro de 1999), não há evidência ou marco zero do começo da história. Assim, algumas vezes será necessário voltar no tempo até os mundos antigo ou medieval. Naquela época a comunicação não era imediata, mas já atingia todos os pontos do mundo conhecido.
O canadense Harold Innis foi um dos vários académicos do século XX a apontar a importância da mídia no mundo antigo. Economista de formação, fez fama com a chamada "teoria da matéria-prima" do desenvolvimento canadense, ressaltando o domínio sucessivo do comércio de peles, peixe e papel e os efeitos desses ciclos na sociedade canadense. "Cada produto básico deixa sua marca, e a mudança para novos produtos invariavelmente traz períodos de crise." Ao fazer uma pesquisa sobre o papel, chegou à história do jornalismo; pesquisando sobre o Canadá — onde as comunicações tiveram importância capital para o desenvol¬vimento económico e político colonial e pós-colonial —, chegou à história com¬parativa dos impérios e seus meios de comunicação, desde a Antiguidade, com Egito e Assíria, até o presente. Em sua obra Empire and Communications (1950), Innis conta, por exemplo, que o império assírio foi pioneiro na construção de estradas; dizia-se que uma mensagem podia ser mandada de qualquer lugar para o centro, e a resposta chegaria no prazo de uma semana.
Como bom historiador de economia, quando escreveu sobre a "mídia", Innis se referia aos materiais usados para a comunicação, contrastando os relati¬vamente duráveis — como pergaminhos, argila e pedra — com produtos razoa¬velmente efémeros — como papiros e papéis (mais adiante, as seções sobre as chamadas "idades" do vapor e da eletricidade irão sublinhar o ponto de vista de Innis a respeito da matéria na mídia de comunicação). Ele chega a sugerir que o uso dos materiais mais pesados, como ocorreu na Assíria, levou à adoção de um viés cultural com relação ao tempo e às organizações religiosas; enquanto os materiais mais leves podiam ser transportados rapidamente a distâncias maiores, resultando em uma tendência relacionada a espaço e organizações políticas. Parte da história inicial que Innis apresenta é frágil, e alguns de seus conceitos são malde-finidos; mas suas ideias permanecem, assim como a ampla abordagem compara¬tiva, como estímulo e inspiração para os próximos pesquisadores desse campo. Espera-se que futuros historiadores analisem as consequências do uso de plástico e fios da mesma forma como Innis fez com a pedra e o papiro.
Outro conceito central na teoria pioneira de Innis foi a ideia de que cada meio de comunicação tendia a criar um perigoso monopólio de conhecimento. Antes de decidir ser economista, ele pensou seriamente em tornar-se pastor batis-ta. O interesse do economista na competição, no caso competição entre diferentes tipos de mídia, estava ligado à radical crítica protestante da politicagem do clero. Argumentava ele que o monopólio intelectual dos monges da Idade Média, basea¬do em pergaminhos, foi solapado pelo papel e pela impressão gráfica, do mesmo modo que o "poder do monopólio sobre a escrita" exercido pêlos sacerdotes egípcios na idade dos hieróglifos havia sido subvertido pêlos gregos e seu alfabeto.
No entanto, no caso da Grécia antiga, Innis enfatizou mais a fala do que o alfabeto. "A civilização grega", escreveu, "era um reflexo do poder da palavra falada." A esse respeito, ele seguiu um colega seu de Toronto, Eric Havelock (1903-8), cujo Preface to Plato (1963) focalizava a cultura oral dos primeiros gregos. Os discursos na Assembleia de Atenas e as peças teatrais recitadas nos anfiteatros a céu aberto foram elementos importantes da antiga civilização grega. Nela, assim como em outras culturas orais, canções e histórias tinham forma muito mais fluida do que fixa, e a criação era coletiva, no sentido de que cantores e contadores de histórias continuamente adotavam e adaptavam temas e frases uns dos outros. Os académicos fazem o mesmo hoje em dia, embora o plágio seja censurado e nossas concepções de propriedade intelectual exijam que as fontes de empréstimo sejam indicadas, ao menos em nota de rodapé.
Ao esclarecer o processo de criação, Milman Parry (1900-35), professor de Harvard, argumentava que a Ilíada e a Odisseia — embora tenham sobrevivido até hoje somente porque foram passadas para o papel — eram essencialmente impro-visadas como poemas orais. Para testar sua teoria, Parry fez um trabalho de campo nos anos 1930 na lugoslávia rural (como era na época), gravando performances de poetas narradores com um gravador de rolo (o predecessor do gravador de fita). Analisou as fórmulas recorrentes (em frases como "mar escuro como vinho") e temas recorrentes (como um conselho de guerra ou o modo de armar um guerrei-ro), elementos pré-fabricados que permitiam aos cantores improvisar histórias durante horas.
No trabalho de Parry, desenvolvido por seu antigo assistente Albert Lord no The Singer of Tales (1960), a lugoslávia, e por analogia a Grécia homérica, ilustrava os aspectos positivos das culturas orais, muitas vezes desconsideradas — e ainda o são — como meramente "iletradas". A visão atual amplamente adotada pelo mundo académico é de que a antiga cultura grega foi moldada pelo domínio da comunicação oral.
Ainda assim, nas expedições que fazia, Alexandre, o Grande, carregava con-go um porta-jóias com a Ilíada de Homero. Além disso, uma grande biblioteca im cerca de meio milhão de manuscritos foi erguida na cidade que levou seu orne, Alexandria. Não é acidental que, associada a essa vasta biblioteca de ma-uscritos, fornecedora de informação e ideias de diferentes indivíduos, lugares e rocas a serem superpostos e comparados, tenha-se desenvolvido uma escola de
críticos que utilizava os recursos da biblioteca para incrementar práticas que
somente seriam disseminadas na era dos impressos (ver p.30). O equilíbrio entre pôs de mídia é discutido por Rosalind Thomas em Literacy and Orality in Ancient Greece(1992).
Imagens, especialmente estátuas, eram outra importante forma de comuni-cação e mesmo de propaganda no mundo antigo, sobretudo em Roma na era de Augusto. Essa arte oficial romana influenciou a iconografia dos primórdios da igreja Católica: a imagem de Cristo "em sua majestade", por exemplo, era uma adaptação da imagem do imperador. Para os cristãos, as imagens eram tanto um meio de transmitir informação como de persuasão. Conforme afirma o teólogo grego Basil de Caesarea (c.330-79), "os artistas fazem tanto pela religião com suas pinturas quanto os oradores com sua eloquência". De maneira semelhante, o papa Gregório, o Grande (c.540-604), dizia que as imagens serviam para aqueles que não sabiam ler — a grande maioria — da mesma maneira como a escrita servia para aqueles que liam. Beijar uma pintura ou uma estátua era um modo comum de expressar devoção, o que ainda hoje em dia se vê nos mundos católico e ortodoxo.
Foi a igreja bizantina que chegou mais próximo dos antigos modelos. Cristo era representado em sua majestade como Pantocrator ("o senhor de todos"), nos mosaicos que decoravam o interior dos domos das igrejas bizantinas. Desenvolvi¬da em uma parte da Europa onde o analfabetismo era muito grande, a cultura bizantina foi também a cultura dos ícones pintados de Cristo, da Virgem e dos santos. Um abade do século XVIII declarou: "Os evangelhos foram escritos com palavras, mas os ícones, com ouro." O termo "iconografia" foi transmitido para a cultura erudita e mais tarde, no século XX, para a popular, em que "ícone" se refere a uma celebridade secular, como — aliás apropriadamente — a cantora Madonna.
Os ícones bizantinos podiam ser vistos em casas, nas ruas e nas igrejas, onde eram colocados em lugares próprios, com portas afastando os leigos do santuário. Não havia essa separação nas igrejas católicas romanas. Em ambas as fés, o simbo-lismo era um aspecto da arte religiosa e das mensagens que transmitia, mas em Bizâncio, ao contrário do Ocidente até a Reforma, o ensinamento pela cultura visual esteve sob ataque, e as imagens eram algumas vezes encaradas como ídolos e destruídas por iconoclastas (destruidores de imagens), em um movimento que alcançou seu clímax no ano de 726.
O islã — assim como o judaísmo — baniu o uso da figura humana na arte religiosa; por isso mesquitas e sinagogas pareciam tão diferentes de igrejas. No entanto, na Pérsia, a partir do século XIV, figuras humanas com pássaros e ani¬mais ressaltavam nas iluminuras que vieram a florescer nos impérios otomano e mogul da índia. Elas eram fábulas ou histórias ilustradas. Os mais famosos exem¬plos de tais ilustrações no Ocidente foram os bordados, como os da Tapeçaria Bayeux (c. 1100), que descreve vivamente a conquista normanda da Grã-Bretanha em 1066, em uma peça de aproximadamente sete metros de comprimento que mostra uma narrativa visual, às vezes comparada a um filme no que diz respeito a suas técnicas e efeitos (Figura 3).
Nas catedrais da Idade Média, as imagens esculpidas em madeira, pedra ou bronze e figurando em vitrais formavam um poderoso sistema de comunicação. No romance O corcunda de Notre-Dame (1831-32), Victor Hugo descreveu a catedral e o livro como dois sistemas rivais: "Este matará aquela." De fato os dois sistemas coexistiram e interagiram durante longo período, como mais tarde os manuscritos e os impressos. "Para a Idade Média", de acordo com o historiador de
Figura 3. Tapeçaria anônima, Apocalipse, século XIV.
arte francês Emile Mâle (1862-1954), "a arte era didática". As pessoas aprendiam com as imagens "tudo o que era necessário saber — a história do mundo desde a criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, o âmbito das ciências, artes e ofícios: tudo era ensinado pelas janelas das igrejas ou pelas estátuas dos pórticos".
O ritual era um outro destacado meio de comunicação medieval, e se man¬teve firme em contextos posteriores. A importância dos rituais públicos na Euro¬pa, inclusive os celebrados em festivais, durante os mil anos que vão de 500 a 1500, é explicada (de modo perceptível, apesar de inadequado) pelo baixo índice de letramento da época. O que não podia ser anotado devia ser lembrado, e o que devia ser lembrado devia ser apresentado de maneira fácil de se apreender. Rituais elaborados e teatrais — como a coroação de reis e a homenagem de vassalos ajoelhados em frente a seus superiores sentados — demonstravam para quem via a cena que havia ocorrido um evento importante. Transferências de terras podiam ser acompanhadas por presentes, objetos simbólicos como um pedaço de turfa ou uma espada. O rito, e seu forte componente visual, era uma forma superior de publicidade, e ainda seria na idade dos eventos televisivos, como a coroação da rainha Elisabeth II. A palavra "espetáculo", comumente usada no século XVII, foi ressuscitada no século XX.
No entanto, a Europa medieval — assim como a Grécia antiga — sempre foi considerada uma cultura essencialmente oral. Os sermões eram um meio impor¬tante de disseminar informação. O que hoje chamamos de literatura medieval teve sua produção, nas palavras de um estudioso pioneiro neste tema, o decano H.J. Chaytor, voltada para um "público ouvinte, e não para um público leitor". Muitas vezes a leitura era feita em voz alta. Em From Script to Pmzf (1945), explicou que, se a sala de leitura da (digamos) Biblioteca Britânica fosse totalmente ocupada por leitores medievais, "o ruído dos sussurros e murmúrios seria intolerável". Os relatos medievais eram realizados em uma "audição" no sentido literal, pois al¬guém os ouvia, enquanto eram lidos em voz alta. O mesmo acontecia com poemas de todos os tipos, monásticos ou seculares. A saga islandesa referente a um passa¬do que não o greco-romano recebeu esse nome por ser lida em voz alta, ou seja, falada ou "dita".
Foi somente pouco a pouco, a partir do século XI, que a escrita começou a ser empregada por papas e reis para uma variedade de propósitos práticos, enquanto a confiabilidade na escrita como registro (conforme Michael Clanchy mostrou em From Memory to Written Record, 1979) se desenvolveu ainda mais lentamente. Por exemplo, na Inglaterra, em 1101, algumas pessoas preferiam confiar mais na palavra de três bispos do que em um documento do papa, que descreviam com desdém como "peles de carneiros castrados escurecidas com tinta". No entanto, apesar desses exemplos de resistência, a penetração gradual da escrita na vida cotidiana do fim da Idade Média teve consequências importantes. Inclusive na mudança de costumes tradicionais por leis escritas, no surgimento da falsificação, no controle da administração por escriturários (clérigos instruídos) e, como sa¬lientou Brian Stock em The Implications of Literacy (1972), no surgimento de hereges. Estes justificavam suas opiniões não-ortodoxas baseando-se nos textos bíblicos, e portanto ameaçando o que Innis chamou de "monopólio" do conheci¬mento pelo clero medieval. Por este e outros motivos, os estudiosos falam do surgimento da cultura escrita nos séculos XII e XIII.
Manuscritos — inclusive iluminuras — foram produzidos em número cada vez mais elevado nos dois séculos anteriores à invenção da impressão gráfica, nova tecnologia introduzida para satisfazer uma demanda crescente por material de leitura. Nos dois séculos anteriores à impressão gráfica, a arte visual também se desenvolveu no que, em retrospecto, foi visto como arte dos retratos. O poeta Dante e o artista Giotto (1266-1330) foram contemporâneos. Ambos eram fasci¬nados pela fama, assim como Petrarca (1304-74), de uma geração posterior, e todos os três alcançaram-na durante a vida. O mesmo aconteceu com Boccaccio (1317-75) e Chaucer (1340-1400) na Inglaterra. O último escreveu um notável poema, "A casa da fama", com imagens de sonho tiradas do tesouro de seu cérebro para dizer o que significava a fama. Petrarca escreveu uma "Carta à posteridade", na qual dava detalhes pessoais, inclusive de sua aparência física, e orgulhosamente proclamava que "os gloriosos serão gloriosos por toda a eternidade". A ênfase na permanência seria ainda mais forte na idade da impressão gráfica.
Com o desenvolvimento da comunicação elétrica, iniciada com o telégrafo, no século XIX, surgiu uma percepção de mudança iminente e imediata. Os deba¬tes na mídia na segunda metade do século XX estimularam a reavaliação, tanto da invenção da impressão gráfica quanto de todas as outras tecnologias que foram tratadas no princípio como maravilhas. Geralmente aceita-se que as mudanças na mídia tiveram importantes consequências culturais e sociais. Controversos são a natureza e o escopo dessas consequências. São elas primordialmente políticas ou psicológicas? Pelo lado político, favorecem a democracia ou a ditadura? A "era do rádio" foi não somente a era de Roosevelt e Churchill, mas também de Hitler, Mussolini e Stálin. Pelo lado psicológico, a leitura e a visão estimulam a empatia com os outros ou o isolamento em um mundo particular? A televisão ou "a rede" aniquilam ou criam novos tipos de comunidades nas quais a proximidade espacial não é menos importante?
De novo, as consequências do letramento ou da televisão são mais ou menos as mesmas em qualquer sociedade, ou variam de acordo com o contexto social ou cultural? É possível distinguir culturas da visão, nas quais o que é visto se sobrepõe ao que é ouvido, e culturas da audição, mais ligadas a sons? Cronologicamente, há uma "grande divisão" entre as culturas orais e literárias, ou entre sociedades pré e pós-televisão? Como a máquina a vapor e a industrialização se relacionam com essa divisão? A invenção — assim como a adoção e o desenvolvimento — de locomotivas e navios a vapor fez reduzir o tempo das viagens e ampliou os merca¬dos. E a eletrônica, palavra que não era usada no século XIX, propiciou o imedia-tismo como previam os comentadores da época.
Alguns pioneiros desses debates deram respostas positivas, e não somente Cipolla (ver p.14), mas também teóricos de áreas académicas bastante diferentes, como Marshall McLuhan e seu aluno Walter Ong, mais conhecido por sua Orality andLiteracy(\982). O primeiro rapidamente se tornou famoso, enquanto o outro se contentou em ser padre e académico. Na Galáxia de Gutenberg (1962), escrita de forma experimental, em Os meios de comunicação (1964) e em outros traba¬lhos, McLuhan, seguindo seus colegas de Toronto (Innis e Havelock), afirmou a centralidade da mídia, ao identificar e traçar as características específicas — inde¬pendentemente das pessoas que as usam — das estruturas organizacionais com as quais operam os produtores e dos objetivos para os quais são usadas.
Para McLuhan, que tinha formação de crítico literário, o importante não era o conteúdo da informação, e sim a forma que ela assumia. Ele embutiu sua inter¬pretação em frases memoráveis como "o meio é a mensagem" e na distinção entre mídia "quente" — como rádio e cinema — e mídia "fria" — como televisão e telefone. Mais recentemente outro canadense, o psicólogo David Olson, em The World of Paper (1994), cunhou a expressão "a mentalidade letrada" para resumir as mudanças que as práticas da leitura e da escrita provocaram, segundo ele, no modo como pensamos a linguagem, o espírito e o mundo, do surgimento da subjetividade à imagem do universo como livro. Ong, mais interessado no contex¬to, reconheceu sua dívida com a teoria de mídia da Escola de Toronto (o nome, como o da escola de Frankfurt, é uma lembrança da contínua importância das cidades na comunicação académica). Ele enfatizou as diferenças de mentalidade entre culturas orais e quirográficas, ou "culturas da escrita", fazendo uma distin¬ção entre "o pensamento baseado na oralidade... na quirografia, na tipografia e na eletrônica". Observou, por exemplo, o papel da escrita na "descontextualização" de ideias, ou seja, na sua retirada das situações face a face nas quais foram original¬mente formuladas, de modo a aplicá-las em outro lugar.
O antropólogo Jack Goody discutiu as consequências sociais e psicológicas do letramento de maneira similar a Ong. Em The Domestication ofthe Savage Life (1977), baseando-se em uma análise de listas escritas no antigo Oriente Médio, Goody enfatizou a reorganização ou reclassificação de informação, uma outra maneira de descontextualização possibilitada pela escrita. Trabalhando em seu próprio campo de estudos no oeste da África, salientou a tendência da cultura oral para adquirir o que ele chama de "amnésia estrutural", isto é, o esquecimento do passado, ou, mais exatamente, a lembrança de um passado que é igual ao presente. Por outro lado, a permanência de registros escritos age como um obstáculo a esse tipo de amnésia, e portanto estimula uma consciência da diferença entre passado e presente. O sistema oral é mais fluido e flexível; o escrito, mais fixo. Outros analistas fizeram observações contundentes sobre as consequências do letramento como condição para a emergência do pensamento abstrato e crítico (para não mencionar a empatia e a racionalidade).
Essas observações sobre os efeitos do letramento foram contestadas, sobre¬tudo, por outro antropólogo britânico, Brian Street. Em Literacy in Theory and Practice (1984), Street criticou não somente o conceito da "grande divisão", mas também o que chamou de "modelo autónomo" do letramento como "uma tecno¬logia neutra que pode ser destacada de contextos sociais específicos". Em seu lugar propôs um modelo de letramentos, no plural, que enfatizava o contexto social de práticas como leitura e escrita e o papel ativo das pessoas comuns que fazem uso dessas aptidões. Tomando exemplos de seu trabalho de campo no Ira, na década de 1970, fez um contraste entre dois tipos de escolaridade, a arte da leitura do Corão ensinada na escola religiosa e a arte da contabilidade lecionada na escola comercial do mesmo lugar.
Caso semelhante pode ser relatado na moderna Turquia, onde o líder nacio- nal Kemal Atatürk ordenou a troca da notação arábica para o alfabeto ocidental em 1929, declarando que "nossa nação mostrará com sua notação e sua mente que seu lugar é no mundo civilizado". A troca ilustra vivamente a importância simbó-lica da mídia de comunicação. Ela também é relacionada à questão da memória, pois Atatürk queria modernizar o seu país, e, mudando a notação, eliminava o acesso da nova geração à antiga tradição. No entanto, nas escolas religiosas que ensinam o Corão, tanto na Turquia quanto no Ira, a notação tradicional arábica ainda é ensinada.
A disputa entre Goody e Street, junto com o debate mais recente sobre realidade virtual e ciberespaço — tema da conclusão deste livro —, oferece ilustra¬ções claras e sempre pertinentes sobre os enfoques e as limitações associadas às tendências disciplinares. No transcurso de seus trabalhos de campo, os antropólo¬gos, por exemplo, têm mais oportunidades que os historiadores para investigar em profundidade o contexto social, mas menos chances de observar mudanças com o passar dos séculos. A partir da década de 1990, as análises da mídia, tanto por antropólogos quanto por historiadores, foram postas de lado pêlos escritores (inclusive romancistas e cineastas). Enquanto isso, ao confrontar os temas levan¬tados no interior da rubrica "globalização", os economistas tendiam a se concen-trar no estatisticamente mensurável. Alguns produtores e roteiristas, desviando-se do problema da relação entre ciência e tecnologia, reduziam "todas as coisas do mundo a pontos luminosos, dados, unidades de mensagem contidas dentro do cé¬rebro e de seu assistente, o computador". Outros alongavam-se sobre a complexi¬dade e o modo como o computador alterou "a arquitetura das ciências (e artes) e a imagem que temos da realidade material".
Para historiadores e especialistas em estudos sociais, há uma divisão contí¬nua entre os que enfatizam a estrutura e os que realçam a organização. De um lado, alguns reivindicam que não há consequências do uso do computador em si, pelo menos não mais do que há com o letramento (incluindo o visual e o compu¬tacional). Somente há consequências para indivíduos que usam essas ferramentas. De outro lado, outros sugerem que o uso de um novo meio de comunicação inevitavelmente muda a longo prazo, se não antes, a visão das pessoas sobre o mundo. Uma corrente acusa a outra de tratar pessoas comuns como passivas, objetos do impacto do letramento ou da computação. A acusação inversa é tratar a mídia, inclusive a imprensa, como passiva, espelho da cultura e da sociedade, e não como agência de comunicação transformando tanto uma quanto outra.
Este não é o lugar para tentar dar fim ao debate. Ao contrário, pedimos aos leitores que se lembrem dos pontos de vista alternativos durante a leitura das páginas a seguir. Nenhuma teoria única fornece um guia completo para o reino contemporâneo das "tecnologias de comunicação de alta definição, de interação e mutuamente convergentes", nas quais as relações, sejam elas individuais ou sociais, locais ou globais, estão em fluxo contínuo.
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